18 de Nov de 2009

A pipoca mais doce ou como se faz um Bodelogue

Falo de um blogue, mais diário que um Jornal e menos cheio de conteúdo que um bolso de operário. Falo do sítio da pipoca mais doce.

Nesse "bodelogue" podem ler-se anedotas, dicas de moda feminina, conselhos de gestão financeira de recurso, e até pequenos desabafos de autora. Podem ler-se linhas de escrita cria...tura!

Longe de me querer tornar num crítico entendido, é a minha condição de leitor comum que me impele a insurgir contra aquela porcaria.

Sei bem que existem blogues para todos os gostos, idades e credos. Mas assim não!!! Não me incomoda nada que sítios como esse existam - aliás até acho bem que existam porque assim o contraste entre estes e os bons é ainda maior. Mas permitam-me que diga que acho é uma bodega! Uma ode ao consumismo e à futilidade com textos curtos pejados de falsa modéstia e arrogância burguesa com um ligeiro toque a novo-riquismo. Raquitismo! De escrita e de autoria que se apresenta numa pessoa que nem gosta de crianças porque irritantes e barulhentas, mas que vai casar e está a escolher vestido...

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Em tempos tive um professor de português que, depois de ter entrado uma maçã a voar pela janela da sala de aula, atirada provavelmente por um qualquer reprovado do ano anterior, exclamou enquanto se baixava para apanhar o fruto já oxidado:

- "Quem é que o vai castigar?... Sou eu!?..."

Na sala, que antes da exclamação já se tinha silenciado com lábios prensados e sorrisos atrás das costas - daqueles sorrisos que antecedem uma gargalhada capaz de esperar meia-hora pelo intervalo para se fazer ouvir inflamada no recreio -, não se ouvia agora nem o riso do atirador de maçãs... "O rapaz se calhar até nem merece castigo nenhum" - pensávamos nós (solidários alunos enfadados)!

Continuou:

-" Quem o vai castigar é a vida! A VIDA!!!!"

Parou-nos a vontade de rir. Logo ali pude avançar alguns anos e admitir que o "sacana" (perdoe-me senhor Professor se estiver a ler isto agora) tinha razão.

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Este pequeno episódio serve para explicar aquilo que quero dizer. A autora pipoca, a dada altura terá decidido atirar uma maçã para dentro da sala dos blogues. Como o rapaz daquela história, ter-se-á tornado heroína do recreio.

Será que a vida já a castigou por tamanha ousadia!? Se calhar ainda não. E digo que ainda não, porque a sr.ª D.ª Pipoca continua a atirar maçãs.

Também é verdade que ainda não as vi/li todas... Mas acho que ter visto/lido apenas aquelas iniciais, foi suficiente para me aperceber que daquele pomar não saem Granny Smiths, Starkings, Fujis, Reinetas nem Bravo de Esmolfe. Quais frutos da eloquência, saem Piparotes azedos de casca furada, sem sumo e com bicho.


Agora pasmemo-nos ainda mais! A autora do blogue ganhou o concurso online da mulher mais invejada de Portugal! Ai Portugal, Portugal!!!

Quem é que a vai castigar!? Sou eu!?...

Embora não mereça castigo, porque afinal de contas só atira maçãs, ao que parece já teve um ligeiro percalço na vida. A autora Pipoca jornalista é, agora, cronista do 24 Horas.

Ora digam lá se o meu antigo professor de Português tinha, ou não tinha, razão!?

É a vida!

17 de Nov de 2009

Olympus Pen

Embora não ache que seja a melhor máquina fotográfica, este anúncio à Olympus Pen deve estar certamente entre os melhores que já vi.

Carlos Tê a voar

Ainda nem tinha começado a ler o Voo melancólico do Melro e o Carlos já me tinha quebrado a defesa com o nome próprio.

Carlos Tê, letrista, poeta, escritor, e sobretudo um gajo esperto, decidiu escrever um livro - acredito que ele não se importe que lhe chame LIVRO - no fim do século passado.


Só agora é que a minha ignorância o descobriu. O Livro. E passados dez anos.

No início (da história, do livro e da idade narrada) o autor criança descreve as brincadeiras. Até aqui tudo normal. Apresenta algumas pessoas, o si próprio Vladimiro e, outra vez, não estranhei.

Na página 14 este grandessíssimo e alternadíssimo Escritor portuense, que só é pena ser portista, parte-me o estatuto de leitor desinteressado e oferece-me este entretanto:

"(...) O peito prometia um canal de delícias como o da Luzia quando se debruçava sobre a canastra de fanecas. Sentia uma pressão na zona do tronco onde a peste da Guiomar afirmava estar a alma. A pressão era agora um tropel de cascos no chão da alma. Doía mesmo. Mas não era uma dor de quando se leva uma canelada; era uma dor boa, que cortava a respiração. E aí pensei no amor, a palavra dos filmes que as personagens invocavam por tudo e por nada. Seria amor, aquela pressão pneumática na zona do tronco onde vivia a alma?"

Ora bolas!!! Sei que há pessoas, escritores e wanna be's, que crêem que para se escrever bem é preciso, para além do jeito, técnica, riqueza vocabular, cultura, investigação, e muito engenho. Enganar-me-ei se disser que este senhor, apenas usou a vontade para escrever isto!?

Há coisas que são mesmo assim. E esta coisa - qual coisa qual quê... é mas é um grande livro é o que é, e ainda nem o li até ao fim - fez-se com outra coisa qualquer que lhe podemos chamar de talento. Mas eu, prefiro chamar-lhe: -"Gaita, sacana que escreves bem que te fartas e aposto que não sabes que o fazes tão bem".

Uma pessoas que diz para nunca se voltar "ao lugar onde já foste feliz"... Ou então que "não se ama alguém que não ouve a mesma canção"... Só podia escrever um livro que ou muito me engano, ou será um dos livros deste minha curta vida de leitor com pouco líquen.


Leia-se o Voo melancólico do Melro. É quase obrigatório. Se calhar foi a "sorte" ou a "sina". Mas agora tenho "um mundo à [mesa de] cabeceira".

Ps: - Senhor Miguel Sousa Tavares, podia aproveitar para conhecer este seu conterrâneo e amigo de bancada!!!

27 de Out de 2009

Dicionário Joanino

N

Noção:

Conceito farto que preenche a certeza de conhecimento relativo. Relativa convicção de um assunto que não se domina. Seguro pensamento de ideia incerta.

Ex: tenho a noção que ando lá perto...

21 de Out de 2009

Feira da Ladra

A manhã era nossa. Nossa porque acordámos de noite, de pressa, de facto. Foi nossa.

Arrumámos tudo, expusemos tudo - porque lá vende o mais esperto do mais perto que há.

Naquela Leira da Farda, os cães passaram com a caravana a ladrar, estacionada, até que a senhora reformada voltasse a arrumar o pesado fardo de não ter outra hipótese. Ainda assim, e sempre com respeito, abrimos o peito para mais um pregão - e nunca com pregos no pão que a merenda fez-se de cozido na hora de pausa que interrompeu a causa e o ouvido.

Volvidos reforços e nutrientes, lá fomos nós ver mais clientes e gentes. Nós e os avós - de alguém que se calhar também lá vende - lá demos de caras com o alcatrão marcado a branco e vestido com roupas de marca. Na feira os larápios andam bem vestidos, só que mal dormidos.

Sem tropeçar nas bagatelas, ajeitámos o banco contra as malhas entre os sacos e os azulejos da senhora do cão - Ai, desculpe! Peço perdão! Que horas são!?

- "Isto hoje está fraco!"

O "Isto" era aquilo! Aquilo que para nós foi experiência, para outros paciência, que "isto" é todos os dias quando calha e onde pode. E se chove, quem os acode, tapa-se tudo com ciência escassa, que "isto" já passa e já seca.

Já disse que o chão é inclinado? E se chove fica tudo molhado, mas desce tudo para a rua do lado que até nisso a feira é boa. Especialmente desenhada para calhar mesmo ali. Calhou bem!

Os preçários dependeram dos horários e da boa vontade de cada um. Entre insistentes, desinteressados, apressados, inteligentes, forretas, caretas, sorridentes e desdentados, estivemos lá nós entre os maior parte reformados a trabalhar num sábado que não foi de cama porque não quisemos. Quisemos assim...


... e também fizemos dinheiro.

Acabado o dia, contámos os trocos e voltámos para casa sabendo bem onde isso era. Num outro, que também seja dia, havemos de lá voltar - também porque queremos. E a Feira, garanto, vai lá estar outra vez inclinada à espera de outra levada. E se tudo correr bem, no mesmo sítio marcado a branco da senhora que nunca vem!

21 de Jul de 2009

Boa noite

Estivemos irmãos, manos e mana - e tu Joana, numa noite que se tornou bela depois de um dia monstro e parvo da escrita adiada.

Temperaturas, risadas, chás gelados e paródias foram suficientes para me mudar o viso que, sem aviso, vieram para me dar boa noite.

Depois disso um beijo, conversa, uma prenda e uma promessa.

Deixem-me agradecer-vos o sorriso que me apetece dar agora mas com palavras porque me falta engenho de figura.

Tomem lá este sorriso estampado deste muito afortunado.

Obrigado.

20 de Jul de 2009

Naïfadas de culpa (parte 1)

Às vezes faço de contas de cabeça.

Sem matemáticas e práticas as ideias que me fintam o raciocínio são às vezes verdadeiras naïfadas profundas e, ainda que inocentes, suficientemente fortes para me impedirem de continuar a escrever uma tese.

Diurnas ou nocturnas e por vezes naïfs, são ideias inoportunas de sonhos a curto-prazo que me empurram a vontade para o chão sem me dar de novo a mão para me ajudar a levantar o dever.

E depois de mais uma interjeição que tem mais um "R" que a ira, lá tenho eu que voltar a pegar no motivo do objecto e torná-lo objectivo. Matuto...Matuto... E lá se vai a força matutina.

Dou alguns exemplos de naïfadas:

O trabalho cancelado em Espanha; o início da provável calvice; o constante estado de parvoíce; a venda e compra de carro; os desenhos no museu; os cães que mataram um pássaro; as horas fechado em casa; a bolsa que não chega; o tempo que vai passando; as noites que não ficam quentes; a fome de coisas que não há no frigorífico; as férias que quero fazer com Ela; o beijo que lhe quero dar; a doença na família; uma provável estada austral; o que falta fazer; o que não apetece; o que apetece; o que aquece; o que merece; o Sporting (ah ah ah); o tecto e a parede; a Internet e o YouTube; as 18 horas...

Distracção... Espera aí um bocadinho! Agora não dá!

Mas até já.

2 de Jul de 2009

Gripe da Crise

- “ Mas eu ainda não lavei as mãos! A professora disse que agora temos que lavar mais as mãos por causa do vírus!”


- “Lavas quando chegares ao infantário! Come isso depressa que a mãe está com pressa!”


A Marta suspirou os 3 euros para cima do balcão e ainda nem tinha acabado de comer o rissol. De boca cheia e com o resto do salgado preso nos lábios diz “Obhigaho” à dona do café, baixa-se para vestir o casaco ao Martim com postura torta para a carteira não cair e apressa-se para o carro – que já é tarde e o IC19 não perdoa depois das 8 e 30m.


Dez buzinadelas mais tarde e a micro-família já avista infantário.


- “Mãe, sabias que o Tomás está doente?”

- “Quem o filho da professora?”

- “Não, o filho da Maria João que veio cá a casa ontem”

- “Coitadinho, com o quê?”

- “Gripe.”


“Deve ser das porcarias que a mãe lhe dá” – pensa a Marta enquanto faz a última rotunda e põe o rádio mais alto para ouvir as notícias das 9. Enjaulado o Martim, lá vai a mãe nervosa por causa da entrevista. Contorna aquela rotunda, faz o mesmo com mais algumas e o profissional da rádio informa, numa notícia que não dura mais que 20 segundos, que foi confirmado mais um caso de Gripe-A numa criança de Queluz. Logo a seguir o mesmo comprimento de onda, mas já noutra onda de seriedade, começa uma reportagem com um economista a falar sobre o desemprego. Marta aumenta ainda mais o volume do rádio porque, isto sim, interessa. Afinal de contas, e era com contas que ela se preocupava, havia sido despedida há duas semanas da empresa por causa de cortes orçamentais.


Marta ia agora ter uma entrevista noutra empresa. Chegada depois de uma maratona de condução, pedem-lhe para (des)esperar numa sala de 2 metros quadrados decorada com cartazes alusivos às novas precauções de higinene e segurança no trabalho.


Lave bem as mãos! Espirre para um lenço e assegure-se de que não o faz perto de colegas! Lembre-se que o seu bem-estar é o bem-estar dos outros!


O único anúncio que Marta lê é aquele mais pequeno, isolado e pouco colorido que diz que se procuram contabilistas.


São agora seis e meia da tarde e a mãe Marta já traz o desencarcerado Martim. Triste porque não ter sido aceite na empresa, manda calar o filho que se queixa numa birra porque lhe doi a garganta.


...


António, director de uma empresa de contabilidade, acabou de deixar a filha na escola e liga de novo o carro para ir trabalhar. Na rádio ouve a notícia que foi detectado o segundo caso de Gripe-A em Queluz. O sedundo em dois dias, e noutra criança! António muda de estação e nem ouve o resto das notícias – “Não me posso esquecer de ligar ao Pinto por causa do empréstimo!”